TEMQUE? OU TENQUE?

Há tempos que observo, curiosamente, as nossas expressões corriqueiras: as palavras que misturamos, os momentos que as usamos, a forma como elas se tornam parte da nossa conversa, que nem notamos mais o seu uso.

O “já” e o “jajá”, por exemplo, sempre me intrigaram.

Me parece que, ao duplicar um termo, queremos indicar a intensidade de seu significado e, portanto, reforçar a mensagem. Mas o “já” e o “jajá” são diferentes.

O “já” indica o agora, o imediato, enquanto o “jajá” nos deixa adiar a obrigação por um instante. Não pode ser muito, só um tempinho para terminar o que se está fazendo, ou para uma ida à cozinha para um copo de água. É um quase agora.

– Você já arrumou o seu quarto? Ainda não, arrumo jajá (enquanto fico aqui deitado no sofá pensando na vida, só mais um pouquinho…).

Aliás, o “agorinha” acontece antes do “agora”. Ele se reduz, se espreme todinho e se encaixa ali, na frente de tudo. O agorinha fura a fila, até mesmo antes do “já” e bem antes do “jajá”.

Já que estou falando nisso, me lembrei do “jaque”. Quem gosta muito do “jaque”, até se refere a ele como um amigo francês, o “jacques”.

O “jaque” nos permite fazer muitas coisas interessantes, representa a carta branca para passar dos limites. O “jaque” estoura orçamentos de obras e de festas, atrasa todo o cronograma, atrapalha todo o planejamento.

– Já que o chuveiro pifou, podemos aproveitar e reformar os banheiros, colocar umas pastilhas mais modernas, uns acabamentos mais bacanas…..

O “jaque” é exigente e, por isso, vem acompanhado de uma certa culpa, discreta porém. Seus atos devem ser implementados já, no máximo, jajá. Nunca, jamais, depois do planejamento original, pois, nesse caso, a culpa toma força e alguém leva bronca.

Você já reparou que o Jacques sempre vem com uma justificativa, quase um pedido de desculpas, por ter se infiltrado no plano original e alterado a ordem natural das coisas?

E, nesse caso, prefiro o “quer saber”. Adoro o “quer saber”, muitas vezes acompanhado de sua interjeição predileta: “ah, quer saber…”

Ele costuma aparecer depois de uma explicação chata e comprida sobre um assunto chato ou caro.

O “quer saber” liberta. Muito.

Por exemplo, vocês estão na livraria e resolvem beber alguma coisa por ali. Você pensa em um café. Não, sete da noite, melhor um suco, uma água com gás talvez. E, logo mais, sentado à mesa de um restaurante, você percebe que está com uma caipirinha na mão. Ah, quer saber, eu estava com fome….. Adoro o quer saber.

O “jaque” e o “quer saber” juntos, então, um delírio.

– Pensamos em passar uma semana na Ilhabela; a casa está lá, quase sem uso, seria bom para descansar um pouco. Ah, quer saber, já que vamos para a praia, resolvemos conhecer a Tailândia.

Preste atenção, o “quer saber” liberta a alma, sem culpa. O “quer saber” é o oposto do “temque”. Ou seria “tenque”, já que o “m” só vem antes do “p” ou do “b”?

– Tenque escovar os dentes antes de dormir? Toda noite? Ah, quer saber, hoje vou dormir assim, sem escova nem dente nem nada. E pronto!

PS: “Tem que” está errado. Pasme! Descobri outro dia. A forma correta é “tem de”, já reparei no jornal que usam a forma correta. Ah, quer saber, nesta altura da vida, sigo com o meu tenque É isso que eu tenquia dizer.

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